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Tribuna Livre
O Brasil bate cabeça na preparação para a Copa
24/07/2010
Na semana passada, com pompa e circunstância, o presidente Lula lançou o plano de obras para a Copa do Mundo. Mais uma solenidade para anunciar um programa mirabolante, que existe apenas no papel.  São R$ 20,7 bilhões para fazer a festa de empreiteiras, políticos, funcionários públicos e privados. E para desespero do TCU, da CGU e do MPU. Anunciou-se o valor dos investimentos, cada área já sabe quanto vai levar,  mas não foi dito o principal: de onde vem o dinheiro?

O Brasil, atrasado como sempre para começar as obras, vai dar um jeitinho tupiniquim para tentar viabilizá-las: as licitações serão flexibilizadas,  para que os prazos sejam cumpridos. As empreiteiras ficaram alvoroçadas, principalmente porque adoram se beneficiar da confusão.  Estamos pelo menos dois anos atrasados no cronograma sugerido pela FIFA. Além disso, a medida provisória, assinada pelo presidente, vai permitir às cidades-sede aumentarem o endividamento, sem se sujeitarem à Lei de Responsabilidade Fiscal. Haja festa.

Lula mostrou-se irritado dias atrás, ao comentar críticas veladas do presidente da CBF, da FIFA e de outras autoridades sobre atraso nas obras, principalmente nos aeroportos. Ironizou as críticas, dizendo que no Brasil "as pessoas, na verdade, ficam querendo que a gente coma o mingau antes de ele estar pronto".

O contribuinte brasileiro, que todos os meses paga o recorde de arrecadação, no volume sempre crescente de impostos, pode se preparar para mais uma tunga nos cofres do Tesouro Nacional. Em 2007, quando o  Brasil foi escolhido sede da Copa do Mundo, como candidato único, o governo arrotou alto e bom som que não haveria dinheiro público nos estádios e nas demais obras de infra-estrutura nos estados. Quem quisesse ser sede, que arcasse com as consequências.

Quase três anos depois, nada foi feito. Nem o local da abertura se sabe. E a iniciativa privada ficou na moita. Em Brasília, no meio do escândalo que implodiu o governo Arruda, o projeto de construção do novo estádio Mané Garrincha, o mais caro de todos, não passou pelo crivo do TCU, pois já nasceu superfaturado. Só na semana passada foram apresentados os novos projetos. O governo anuncia um portal, onde o contribuinte poderá conferir cada centavo gasto nas obras para a Copa. Alguém acredita nisso? Só se de repente todos nós acordássemos na Suécia ou no Japão.

Os aeroportos transformaram-se na Geny das obras da Copa. Nenhum estaria em condições de receber um fluxo da magnitude de uma Copa do Mundo e colocam-se dúvidas sobre a capacidade do governo de aprontá-los para 2014.  A Infraero garante que, com os recursos aprovados, vai entregar tudo pronto antes da Copa. Apesar das críticas, defende-se, assegurando que hoje, de todos os investimentos previstos, só os aeroportos estariam em obras e com projetos prontos.  As demais não existem. Pode ser. O Governador do Rio de Janeiro, por exemplo, que vive reclamando dos aeroportos, não consegue resolver os problemas de segurança da cidade, onde na semana passada um menino de 11 anos morreu atingido por bala perdida dentro da sala de aula.

O problema é confiar esses bilhões para as pessoas que estão hoje no comando do esporte brasileiro. Nos jogos Pan Americanos, escutamos tudo isso. E deu no que deu. O Tesouro calculava gastar entre R$ 400 e R$ 600 milhões. Teria gasto mais de R$ 2 bilhões, porque estado e município do Rio de Janeiro caíram fora. Até hoje, niguém sabe o valor correto. Para não fazer feio, como reconheceu o próprio presidente Lula, a União teve que bancar. Parece até o ensaio da Copa do Mundo. Tudo igual. Os dirigentes do Comitê Olímpico Brasileiro, que só aparecem na hora de comemorar,  se fecharam em copas. O TCU interpelou o Ministério do Esporte e até agora, nós, que pagamos a conta, não sabemos para onde foram os bilhões.

Para a Copa, ainda há tempo de corrigir as distorções do Pan. Nem a imprensa, nem a sociedade acreditam que as obras transcorrerão normalmente e estejam imunes à corrupção e aos atrasos. A exemplo da África do Sul, bilhões serão gastos para construir estádios-monumentos que servirão apenas para os jogos da Copa. Depois, a maioria ficará ociosa. Como acontece em Brasília, com o estádio Bezerrão, construído pelo governo Arruda, ao custo de R$ 58 milhões. Com dois times na terceira divisão, desde 2008, só ficou lotado em dois jogos: Brasil X Portugal e nas finais do campeonato brasileiro daquele ano, entre S.Paulo X Goiás. De resto, permanece lá, um monumento ao descaso e acinte ao dinheiro do contribuinte. Quem acredita que vai ser diferente?

Jornalista, Consultor de comunicação.
Editor do site www.comunicacaoecrise.com
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